sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Edward del Rosario









As pequenas memórias

"Foi nestes lugares que vim ao mundo, foi daqui, quando ainda não tinha dois anos, que meus pais, migrantes empurrados pela necessidade, me levaram para Lisboa, para outros modos de sentir, pensar e viver, como se nascer onde eu nasci tivesse sido conseqüência de um equívoco do acaso, de uma casual distração do destino, que ainda estivesse nas suas mãos emendar. Não foi assim. Sem que ninguém de tal se tivesse apercebido, a criança já havia estendido gavinhas e raízes, a frágil semente que então eu era havia tido tempo de pisar o barro do chão com seus minúsculos e mal seguros pés, para receber dele, indelevelmente, a marca original da terra, esse fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora úmido, composto de restos vegetais e animal, de detritos de tudo e de todos, de rochas moídas, pulverizadas, de múltiplas e caleidoscópicas substâncias que passaram pela vida, e à vida retornaram, tal como vêm retornando os sóis e as luas, as cheias e as secas, os frios e os calores, os ventos e as calmas, as dores e as alegrias, os seres e o nada. Só eu sabia, sem consciência de que eu sabia, que nos ilegíveis fólios do destino, e nos cegos meandros do acaso, havia sido escrito que ainda teria de voltar à Azinhaga para acabar de nascer."

Pág 11



"Cai a chuva, o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mais expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma coisa em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida. É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria que não pôde ser nunca. Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas, por causa do fresco da madrugada. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Não sabe que há poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado, ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?


(...)

Tu estavas, avó, sentada na soleira de tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e árvores assombradas e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: “o mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.” Assim mesmo. Eu estava lá."

Pág 120


Trechos do livro "As pequenas memórias", do grande José Saramago, que deus o tenha, amém.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

lovely guys



rafael coutinho, daniel galera, rafael grampá & daniel pellizzari
do sul do brasil para o mundo!

Betsy' O

É para lá que eu vou


“Na ponta da palavra está a palavra. Quero usas a palavra “tertúlia” e não sei aonde nem quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que vou. E de mim saio para ver. Ver o que? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um corpo para se acomodar. Mim é um eu que anuncio. Não sei sobre o que estou falando. Estou falando do nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e algém dirá com amor meu nome. É para meu pobre corpo que vou. [...] À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. A que diz palavras. Palavras ao vento? Que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto. Oh, cachorro, cadê tua alma? Está à beita do teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente. Que estou a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.”

Clarisse, “É para lá que eu vou”.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

do cotidiano

'a vida cotidiana começa a nascer quando as ações e relações sociais já não se relacionam com a necessidade e a possibilidade de compreende-las e de explicita-las, ainda que por meios místicos ou religiosos; quando o resultado do que se faz não é necessariamente produto do que se quer ou do que se pensa ter feito.'

'estamos aparentemente condenados ao tempo trágico do atual e do imediato, ao tempo da falta de imaginação e da falta de esperança.' Maffesoli

'o operário que trabalha, que submete seu corpo, seus gestos, seus movimentos ao ritmo da máquina, à disciplina do processo de trabalho e ao desencontro do processo de valorização, de apropriação privada dos resultados da produção social, também dorme e sonha.'

'(...) ainda não vivem na (e a) cotidianidade, que não é a aceitação resignada da impotência de todos os dias, mas a vivencia do estranhamento mediada pela consciencia critica dessa impotencia.'

'é nas tensões do vivido que tem lugar o encontro/desencontro da vida cotidiana com a vida privada, e da vida cotidiana com a História.'

'(...) a cotidianidade é a era dominada pelo cotidiano e pela cotidianização da vida. isto é, pela fragmentação da consciência, pela manipulabilidade da consciência que não captura sua relaçao com o que Sartre define como processo de totalização em curso, na totalidade que lhe dá sentido. A cotidianidade é, justamente, o tempo em que o íntimo e o familiar são invadidos por essa dilaceração, pela percepção falseada, deformada, mutilada. o íntimo e familiar esta invadido pelo público, pela manipulação da percepçao: a televisao, o radio, portanto, pelo adverso, seu oposto.'

'(...) lefebvre não retorna, simplesmente, aos conceitos de Marx. mas à relação entre um modo de pensar e uma prática, isto é, a um projeto na práxis que define o trajeto de uma vida. o método dialético está no centro desse retorno. mas o método que foi se definindo ao longo da obra de Marx, que combina os momentos do método de investigação e do método de explicação; e que culmina com a análise inacabada sobre as classes sociais, isto é, sobre a primeira tríade: trabalho, terra e capital, ou seja, salário, renda e lucro. o pensamento de Marx não era binário, como o fez mais tarde o marxismo vulgar, e sim triadico.'


josé de souza martins